domingo, 28 de agosto de 2011



Você só se dá conta da falta que uma pessoa faz quando seus dias sem ela parecem intermináveis. Um dia invade o outro, uma semana invade um mês, e os meses se transformam em anos. Então, usufruindo de sua própria ausência você se vê largado em um canto qualquer, sufocado por uma neblina esbranquiçada com cheiro de cinzas que paira no ar, e por copos com resquícios de bebidas esquecidas e ― agora mornas pelo gelo derretido ― que já não embrigam o bastante para fazer com que as memórias de tudo se transformem em memórias de nada. O relógio inconstante parece quebrado, mas por alguma irônia do destino seus ponteiros ainda marcam três manhã, e por uma irônia ainda maior você se encontra entorpecido, com um telefone em mãos e uma chamada que não se compl…
― Alô? ― Sua voz me atinge, me fazendo lembrar como eu sou dependente de você. 
(Sua voz podia ser a minha canção preferida. Podia.) 
― Alô… Sou eu ― Digo estúpida, sabendo que sua maior vontade agora e retroceder esses dois segundos e ignorar essa ligação. Não, na verdade essa é a minha maior vontade. 
― Você… E o… 
― Não, não fala nada, por favor ― Imploro com a voz repleta de lamúrias, agonias intermináveis e acumuladas ― Só me escuta, por favor. Você sabe que dia é hoje, não sabe? Eu sei que você sabe, porque eu estive tentando te fazer lembrar dessa maldita data durante toda a semana.Sabe aquelas centenas de mensagens eletrônicas deixadas na sua caixa postal, com um número desconhecido? Você sabe, era eu. Era eu tentando dizer que eu ainda me importo demais pra deixar que você passe por essas 24 horas sem ao menos se perguntar o que teria sido de nós dois. Ontem de noite, enquanto eu esperava o tempo passar e o relógio marcar logo meia noite, para eu dar início ao meu ritual insano e masoquista de esperar por um sinal seu, eu finalmente percebi que minha vida é uma farsa sem você ― Ouço sua respiração descompassada do outro lado da linha, e talvez minhas palavras nem sejam assim tão importantes… Talvez você não precise escutá-las, afinal ― Você… Você está me ouvindo? 
― Sim ― Você diz depois de algum tempo, com a voz cansada, conturbada. Eu me perco em nossos cobertores, procurando algum rastro do seu cheiro, já substituido por outras colônias baratas que dificilmente acalentam meu desespero. 
 Então, depois de chegar a conclusão de que minha vida é uma grande farsa, eu cheguei a conclusão de que você é a pior coisa que já me aconteceu.Eu pensei em ir até a sua casa e gritar na sua cara o quão canalha você é. Canalha, desgraçado, filho da puta, maldito… Você sente orgulho de ser tudo isso? Droga, eu sei que isso te corrói por dentro, mas a questão é que desde que você foi para cama com outra, me deixando existir só no seu passado, minha cabeça só sabe te odiar. Eu espero que você saia de casa e que o mundo desabe sobre a sua cabeça, que você se perca em um beco escuro, que você manche a sua melhor camisa com aquele maldito café dscafeinado que você tanta gosta. Eu espero que as mulheres que terminam o dia na sua cama e nos braços que costumavam ser meu abrigo, tenham o meu cheiro, só para você se torturar, só para você se contorcer em meio a carícias frias que não se comparam as minhas. Eu te odeio, mas o problema em te odiar é que eu… ― Não consigo encontrar a minha voz… Eu espero que o telefone esteja mudo, que você tenha se cansado e desligado, e que esse simples ato seu acabe com as minhas expectativas e um novo começo. Mas a sua respiração e o chiado do seu telefone me fazem ter certeza de que você continua aí, ouvindo minhas bobeiras. Por um segundo, eu espero que você me mande calar a boca e diga como eu sou incrivelmente boba por não acreditar no seu amor… Mas você continua em silêncio. Você não me surpreende.
― Você me odeia ― Eu deveria te odiar, eu sei. Então porque no meio desse ódio todo, a minha vontade de você ainda parece ter voz própria e gritar? Implorar por você? Se você soubesse como a sua ausência me maltrata, me destrói… Como a sua ausência interminável me reduz a nada. 
― Eu te odeio. Eu te odeio porque eu estive lutando por nós dois durante esses malditos quatorze meses, e eu jurei a mim mesma que eu seria forte e que não desistiria de nós dois, garoto. E você, você me deixou fraca. Você me fez desistir. Você parece não se importar em estar me perdendo. 
― Ei, olh…
― Não, me escuta! Eu te odeio porque você me transformou em uma garotinha fraca, indefesa, que tem medo de seguir os próprios passos. Você pegou toda a minha força e foi embora com ela, e me fez insegura. Eu me sinto tão, tão pequena e quebradiça. Eu tenho medo de encontrar novas pessoas, tenho medo de me encantar com sorrisos, de me perder em olhares. Eu tenho medo de me apaixonar por outros perfumes, porque eu tenho medo de ver meu mundo sendo estilhaçado de novo. Eu tenho medo até mesmo de sair da cama pela manhã, porque eu sei que o seu nome vai estar por todos os lugares nos quais vou estar. O som da sua risada ainda vai me perseguir, e eu ainda vou esperar encontrar você usando um daqueles seus suspensórios desgastados, e trazendo no rosto aquele seu sorriso irritante, em cada uma das esquinas em que eu dobrar. Fazem exatos trinta e dois dias desde que você me deixou para trás, e eu ainda me pergunto por que é que você continua fazendo parte dos meus dias. Me explica isso, por favor. 
(Silêncio.) 
(Se você soubesse a falta que você me faz.)
― Eu sinto muito.
(Três e vinte e sete da manhã.)
Você sente muito por ter entrado na minha vida? Por ter deixado te fazer parte dela? Me diz, por que eu não entendo. Você sente muito por ser o único homem capaz de me fazer sentir completa e viva? Por ser o único que consegue me fazer ir até o inferno e depois me levar de novo ao paraíso? Por que eu sinto muito também. Eu sinto muito por ter deixado que você fosse tudo isso… Eu sinto muito pela minha cabeça que deixou de entender o significado da palavrão razão, e aderiu a tamanha insanidade. Eu sinto muito por ter sobrecarregado meus ouvidos com o timbre delicioso da sua voz, e de ter acostumado meu corpo aos seus toques quentes e urgentes. Eu sinto muito por ter te entregado meu coração, e por ter deixado que você marcasse-o com inúmeras cicatrizes e feridas que não fecham. 
― Você não sente muito ― Desisto… Assim como já desisti de você, de mim… Assim como já desisti de nós… Desisto das minhas palavras. 
― Eu não confio em mim mesmo quando estou do seu lado, e você sabe disso ― Não, eu não sei. Eu não quero saber. Eu não quero deixar que a sua voz destrua minhas fortalezas. Eu só quero que isso acabe. Por que você não me rouba para você de uma vez? Por que você não deixe de se importar com o resto do mundo, e se impora apenas com nós?  ―  Você sabe que você acabou com todo e qualquer motivo que eu pudesse ter para seguir em frente. Você me tirou a vontade de fazer planos, porque com você eu aprendi que eles não se realizam. Você me deixa com medo, você me deixa inseguro e me deixa perdido… E eu odeio me sentir assim. Eu posso viver sem você, e você pode viver sem mim, mas o problema é que minha vida sem você nunca mais vai ser a mesma. O problema é que todas essas garotas que acabam na minha cama e que você tanto odeia, todas elas tem um pedaço teu. O que eu faço com isso? O que eu faço com essa necessidade de seguir em frente que sempre acaba sendo destruída toda vez que uma garota que tem a mesma cor dos seus olhos, ou que usa o mesmo perfume que você costumava usar, ou até mesmo que tem o seu nome acaba nos meus abraços? O que eu faço quando a minha maior vontade é substituir todas elas por você? 
(É sempre assim… Você sempre me ganha fácil demais.) 
O que eu faço com esse vazio que você causou? 
O que eu faço quando as coisas não fazem sentido quando você não está? 
O que eu faço quando te vejo seguir em frente, mas simplesmente não consigo sair do lugar? 
― Não… O que eu faço com esse vácuo que você deixou na minha vida? Com esse buraco negro que você plantou dentro de mim e agora suga todas as coisas boas que tentam me fazer seguir em frente? Você ao menos se lembra dos nossos planos? Lembra quando combinanos de fugir juntos e de como as coisas pareciam perfeitas naquela época? Eu e você, a nossa casa e o nosso colchão. A gente nunca precisou de coisas materiais. A gente sempre se bastou, e porque foi que isso deixou de ser o bastante? Quando foi que aqueles planos bobos de passar a madrugada inteira acordados, perdidos um nos braços do outros, falando sobre coisas desconexas como a cor das minhas unhas ou sobre a suas fobias estranhas deixaram de existir? E aquele beijo de baixo da chuva, ou aquela briga por ciúmes que teríamos na praia?Eu não vou poder vestir a sua camisa quando acordar, e não vou poder sorrir ao notar que o seu cheiro ficou impregnado em mim. Eu não vou poder te levar torradas na cama, e nem te chamar de meu… Então me diz, o que é que eu faço com todos esses planos que agora já não são mais o bastante para nos manter unidos? Me diz o quem é que vai me acolher quando eu estiver me sentindo desprotegida? De quem é que eu vou cuidar em noites de tempestade? Nada disso faz sentido se não for com você. Eu não quero outros perfumes, outros braços, outros planos. Eu quero os nossos, eu sempre quis eles e eu continuo querendo ― E droga, há uma grande possibilidade de eu continuar querendo, mesmo que esse seja o nosso fim. O nosso fim de verdade ― Devíamos ser eu e você, acima de tudo e de todos. Devia ser algo natural, confortável. Eu devia continuar sendo só sua, e você sendo só meu… Eu ainda te pertenço, e injustamente você já pertence a outras. Era pra esse amor ferido e orgulhoso bastar, mas ele não basta. Era pra esse meu ódio ser capaz de me manter longe de você, mas ele só faz com que eu sinta mais a sua falta. Ele vem me maltratando a dias, arranhando todo meu interior e me fazendo dar passos falsos até você.
(Eu te odeio. Eu te amo.)
(Eu te amo até mesmo quando te odeio.) 
Eu sinto tanto a sua falta, e do que costumavamos ser. Sinto falta de saber que o seu sorriso é meu, que meu nome te faz arrepiar e que seu coração se agita com a minha presença. Você sente saudade? Saudade da minha voz ao pé do seu ouvido sussurrando seu nome, te chamando de meu. Você sente saudade das minhas declarações bobas durante o dia? Você sente saudade de nós? Não, não existe nós. Existe você e existe eu… Eu sinto tanto falta do nós. 
― São três e meia da manhã e eu só queria te ligar pra ouvir a sua voz ― Admito, ignorando aquilo que chamam de amor próprio, e jogando o que me resta de orgulho no lixo. Admito sabendo que o simples fato de ouvir a sua respiração do outro lado da linha já me faz perceber que eu não mudaria um só segundo do que passei do seu lado… ― Eu não mudaria nada ― Deixo as palavras soltas, e de repente esse silêncio que se instala entre nós dois me parece familiar, idêntico ao silêncio que se fez antes de você me deixar. 
― Eu mudaria a parte em que acabou. 
― Eu não queria que nos perdessemos. 
― Mas nós já nos perdemos, peq… 
― Não, não diz isso. 
(Me deixa acreditar que isso tudo é só mais um obstáculo, e que no meio desse labirinto todo nós dois ainda conseguimos nos encontrar.) 
Me deixa acreditar que você ainda pode me encontrar dentro de você, mesmo que esquecida… Assim como eu ainda posso te encontrar aqui, gravado em mim. 
― Eu preciso tirar você da minha cabeça. 
― Eu preciso tirar você da minha vida. 
(Preciso. Não quero.) 
E o silêncio, de novo, me faz perceber que não resta nada. Eu já não sou o bastante para você, e você ainda permanece em excesso dentro de mim. A saudade que eu sinto de você e do que você era do meu lado já não é milagrosa a ponto de fazer você ficar do meu lado, só por mais alguns instantes. Talvez você esteja certo, e talvez esse amor tenha se perdido.Talvez nós ― não, eu e você ― tenhamos nos perdido. Mas se for isso, por que eu ainda te encontro? Te encontro em cada pedacinho meu, em cada sussurro perdido que escapa dos meus lábios antes seus… Encontro você em cada pensamento que me invade antes de dormir e em cada pensamento que me desperta pela manhã. Nos meus melhores momentos, nos meus piores, eu te acho sempre, perdido e esquecido aqui, em cada mínimo detalhe meu. Eu não consigo te tirar de dentro de mim. Eu não consigo me perder da tua presença, de você… Então, se a gente se perdeu, por que é que eu ainda te encontro? Sempre? Por que é que você ainda faz parte de mim?
― Me escuta só mais um pouco… ― Você não me responde, e eu tento controlar minha vontade doentia de implorar para que você deixe de ser tão teimoso e venha logo terminar a noite do meu lado, perdido nas minhas cobertas, preenchendo os espaços vazios da minha cama ― Eu sinto a sua falta. Eu me culpo todos os malditos dias por não ter insistido mais em nós dois. Eu me culpo todas as noites por não ter sido forte para te mandar calar a boca todas as vezes que você me mandou embora. Eu sinto muito por ter jurado não deixar que o nós chegasse ao fim, e mesmo assim ter que ter desistido de nós. Eu amo você, e eu sei que é pra sempre… 
― Por favor… Não fala essas coisas… 
― Me deixa terminar, eu já vou desligar ― Eu já vou me perder por completo de você. 
― Eu sinto a sua falta também, escuta. 
― Eu só queria que você soubesse que todas as vezes que me distanciei, foi na esperança de que você me puxasse para perto… Quando você disse que nosso amor não era o bastante, eu só queria que você, assim como eu, estivesse disposto a mudar isso. Eu não queria ter que esperar os meses passarem, para poder te ligar nesses malditos dias em que lamentamos os nossos aniversários de um namoro que já deixou de existir há muito. Eu não queria ter que me enganar e forçar sorrisos para que todos acreditem em um bem estar que não existe… Mas eu não queria tanta coisa, que de uma maneira ou de outra acaba sendo inevitável. Eu não queria que a minha vida se distanciasse da sua. Eu não queria ser a ex-psicótica que te liga as três horas da madrugada para dizer que se sente a sua falta. Eu queria apenas ser aquela aparece na sua porta, todos os dias, as três da manhã, pra dizer que te ama e que sente muito por ter tropeçado em tantos erros, tantos meus quanto teus. Eu só queria que meus acertos pesassem mais. 
― Eu amo você. 
(Então por que você deixou de acreditar em nós?) 
(Então por que você deixou de acreditar que nosso amor era o suficiente?)
― Eu sei. 
(Silêncio)
(Quatro e quinze da manhã.) 
― Se cuida ― Você sussurra.
(Eu quero ser cuidada por você.)
― Se cuida também… Amo você, tenta lembrar ao menos disso, por favor… Me esquece, mas não esquece desse meu amor ― Minha voz arrastada denuncia minha necessidade de prolongar o momento, que logo acaba. O telefone fica mudo, a sua respiração desaparece. Eu ainda sinto sua falta…E o silêncio que preenche a linha, e ensurdece meu interior me faz aceitar que como fora dito a princípio, minhas palavras não mudam nada. A sua ausência que permanece tangível e imutável me faz perceber que chegamos ao nosso fim… E esse coração ferido que ainda bate, mesmo que fraco, mesmo que em uma contagem regressiva… finalmente cede, e finalmente diz à linha muda: 
― Adeus, amor. 

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